A entrega a Deus é um dos temas mais constantes das Escrituras, recorrente em cada era da narrativa bíblica e nos lábios de quase toda figura cuja vida as Escrituras registram em profundidade. Aparece nas narrativas patriarcais, nos cânticos de Davi, nas advertências dos profetas, no ensino de Jesus e nas cartas dos apóstolos. Os versículos que seguem não são exaustivos. São vinte Escrituras representativas, tomadas de todo o cânon, escolhidas porque cada uma nomeia uma faceta distinta do que a entrega a Deus de fato exige da alma e do que produz na alma que a pratica.
O primeiro conjunto vem da literatura sapiencial, onde a entrega aparece sob a forma da confiança. «Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apoie no seu próprio entendimento. Reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas» (Provérbios 3:5–6). A instrução é abrangente. Não divide a vida em esferas onde Deus governa e esferas que nós administramos. Em todos os seus caminhos. A retidão do caminho não é a ausência de dificuldade; é a certeza de que o próprio caminho foi ordenado por Aquele que caminha à nossa frente.
A entrega não é um ato que realizamos e completamos; é a condição que habitamos. O sacrifício é a vida inteira, oferecida enquanto ainda está sendo vivida.Romanos 12:1, comentado
Do mesmo livro: «Muitos são os planos no coração do homem, mas o que prevalece é o propósito do Senhor» (Provérbios 19:21). Isto não é um desestímulo ao planejar. É uma calibragem da expectativa. Os planos são apropriados. Também são subordinados. O versículo pede à alma sustentar seus planos com a mão aberta, sabendo que o propósito superior prevalecerá e que o prevalecer do propósito superior é, de fato, a melhor coisa que pode acontecer ao plano.
Os Salmos falam o idioma da entrega com uma ternura particular. «Entregue o seu caminho ao Senhor; confie nele, e ele agirá» (Salmo 37:5). O verbo hebraico traduzido «entregar» tem o sentido de «rolar», como rolar um peso das próprias costas e colocá-lo sobre as de outro. O salmista não está descrevendo um exercício mental. Está descrevendo o gesto físico da transferência. O peso que era nosso já não é nosso. Não o abandonamos. Colocamo-lo onde sempre deveria repousar.
E do mesmo Salmo: «Aquiete-se diante do Senhor e aguarde por ele com paciência» (Salmo 37:7). A quietude não é inatividade; é a cessação do afã. A espera não é passiva; é alerta, atenta, orientada para Aquele cujo tempo não é o nosso. A entrega, no Saltério, raramente se separa da espera. As duas são aspectos de uma mesma postura.
Salmo 46:10: «Aquietem-se e saibam que eu sou Deus.» O versículo é tão familiar que quase perdeu sua força, e contudo permanece a declaração mais concentrada de entrega que as Escrituras oferecem. A quietude é a precondição do conhecimento. A alma não pode conhecer a Deus enquanto está ocupada com a administração daquilo que somente Deus pode administrar. A quietude limpa o campo. O conhecimento o preenche.
Salmo 55:22: «Entregue suas preocupações ao Senhor, e ele o susterá; jamais permitirá que o justo venha a cair.» A promessa é dupla. A primeira metade descreve o ato que nós fazemos: entregamos. A segunda descreve a resposta que Deus dá: ele sustenta. A entrega a Deus jamais é a alma lançando seu peso no vazio. É a alma colocando seu peso sobre uma Pessoa.
Os profetas levam o tema à dimensão pública. Isaías 26:3: «Ao que está firme em seus propósitos, tu guardarás em perfeita paz, porque em ti confia.» A paz perfeita não é a ausência de turbulência. É o resultado de a mente estar fixada n'Aquele em quem a turbulência é vencida. O versículo identifica com precisão o mecanismo da paz: uma mente sustentada, fixada pela confiança.
Isaías 41:10: «Não tema, pois estou com você; não se assuste, pois sou o seu Deus. Eu o fortalecerei e o ajudarei; eu o segurarei com a minha mão direita vitoriosa.» O versículo é uma resposta pactual à pergunta que o medo sempre formula. A entrega a Deus é a aceitação, por parte da alma, dessa resposta, a disposição de habitar dentro da promessa em vez de fora dela.
Isaías 55:8–9: «Os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, nem os seus caminhos são os meus caminhos, declara o Senhor. Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os seus pensamentos.» Esta é a razão estrutural pela qual a entrega é necessária. A razão pela qual não conseguimos dirigir bem a nossa própria vida não é que sejamos insuficientemente inteligentes. É que operamos em uma altitude diferente d'Aquele que vê o todo. A entrega é o reconhecimento da altitude.
Jeremias 29:11: «Porque sou eu que conheço os planos que tenho para vocês, diz o Senhor, planos de fazê-los prosperar e não de causar dano, planos de dar a vocês esperança e um futuro.» O versículo é frequentemente citado fora de seu contexto, uma carta a exilados cujo futuro imediato não continha prosperidade nem muita esperança. O versículo não é uma promessa de circunstâncias confortáveis. É uma promessa de autoria. Qualquer que seja a circunstância, o plano acima dela está sendo sustentado por Aquele cuja intenção para conosco é boa.
Os Evangelhos dão ao tema a sua expressão mais aguda. Mateus 6:33–34: «Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas. Portanto, não se preocupem com o amanhã.» A ansiedade, neste ensino, é tratada como uma má alocação da atenção. O remédio não é a supressão da ansiedade, mas a reordenação da atenção, primeiro o Reino, depois o restante, que chega ao seu devido lugar.
Mateus 11:28–30: «Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas.» O convite é o mais direto das Escrituras. A entrega não é a privação do descanso; é a entrada no descanso. O jugo é real. O esforço é real. Eles simplesmente pertencem a Cristo, que os carrega de um modo que a alma não conseguiria.
Lucas 22:42, no jardim do Getsêmani: «Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua.» Este é o modelo. A primeira metade da oração é honesta. A segunda metade está entregue. As duas coexistem. O exemplo que nos é dado não é uma oração em que os nossos desejos tenham sido suprimidos antes de nos aproximarmos do Pai; é uma oração em que os nossos desejos são ditos com simplicidade e em seguida colocados debaixo dos seus.
João 12:24: «Eu lhes asseguro que, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, continuará ele só. Mas se morrer, dará muito fruto.» A imagem é a lei estrutural da vida espiritual. O grão não aumenta permanecendo intacto. Aumenta entrando na terra. A entrega é a queda. O fruto é a consequência.
As Epístolas destilam o ensino em instrução prática. Romanos 12:1: «Portanto, irmãos, rogo-lhes pelas misericórdias de Deus que se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês.» A expressão «sacrifício vivo» é paradoxal e exata. O sacrifício é a vida inteira, oferecida enquanto ainda está sendo vivida. A entrega não é um ato que realizamos e completamos; é a condição que habitamos.
Romanos 8:28: «Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito.» O versículo é um dos mais citados das Escrituras e um dos mais mal compreendidos. Não diz que todas as coisas são boas. Diz que Deus age em todas as coisas para o bem. O agir está em suas mãos. Nossa entrega é o que nos permite viver sem resolver aquilo que não podemos resolver.
Filipenses 4:6–7: «Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus.» O mecanismo é nomeado. A paz não é produzida pelo entendimento. É dada por Deus e guarda aquilo que a mente não pode guardar por si mesma.
1 Pedro 5:6–7: «Portanto, humilhem-se debaixo da poderosa mão de Deus, para que ele os exalte no tempo devido. Lancem sobre ele toda a sua ansiedade, porque ele tem cuidado de vocês.» Unem-se duas cláusulas. A entrega é a humildade. A ansiedade é a carga. O lançar é o ato. A razão dada é aquela que as Escrituras seguem repetindo: ele tem cuidado de vocês.
Tiago 4:7: «Portanto, submetam-se a Deus. Resistam ao diabo, e ele fugirá de vocês.» A entrega é a precondição da resistência. A ordem importa. Primeiro nos submetemos. A partir da posição de submissão, temos autoridade. A partir da posição de autogerenciamento, não temos.
O último versículo provém dos capítulos finais do Novo Testamento. 1 João 5:14–15: «Esta é a confiança que temos ao nos aproximarmos de Deus: se pedirmos alguma coisa de acordo com a sua vontade, ele nos ouve. E se sabemos que ele nos ouve em tudo o que pedimos, sabemos que já temos o que dele pedimos.» O versículo fecha o círculo. A entrega não silencia os pedidos da alma. Os alinha. Os pedidos que surgem de um coração entregue são ouvidos, porque foram formados por Aquele que ouve.
Estes vinte versículos não esgotam o testemunho bíblico sobre a entrega. São marcos ao longo de uma única linha contínua, uma linha que começa na sabedoria dos patriarcas, atravessa os cânticos de Davi e as advertências dos profetas, encontra o seu centro na oração de Cristo no jardim, e conclui nas instruções práticas dos apóstolos. A linha é ininterrupta. A instrução é a mesma. Confie nele. Lance sobre ele a sua ansiedade. Submeta os seus planos a ele. Ore a sua oração honesta e termine-a dizendo: seja feita a tua vontade. As Escrituras não apresentam a entrega a Deus como uma opção entre várias. Apresentam-na como a forma estrutural da vida que está sendo formada dentro dele.