As orações de entrega não são uma categoria especial de oração reservada para emergências espirituais. São a estrutura subjacente de toda oração honesta. Orar é, em algum sentido, entregar, reconhecer que os assuntos pelos quais oramos não estão dentro do nosso poder para resolver, e colocá-los nas mãos d'Aquele que pode. O que segue são quatro orações, escritas para os quatro momentos em que a alma mais delas necessita, com um breve comentário sobre o que cada oração faz e por que a estrutura importa.
O primeiro momento é a manhã. Antes que o dia tenha começado, antes que a primeira tarefa tenha sido atendida ou o primeiro e-mail aberto, a alma se encontra no limiar de um dia que ainda não viu. A manhã é o momento mais natural para entregar, porque nada ainda foi agarrado. O aperto virá, no instante em que chegar a primeira notícia, começar a primeira conversa, apresentar-se a primeira frustração, mas por alguns minutos na manhã, as mãos seguem abertas. Uma oração matinal de entrega é a colocação deliberada do dia, antes que comece, sob a guarda de Deus.
Deito-me porque tu estás acordado. O sono da alma é permitido pela vigília de Deus. Esta é a precondição do sono real. Sem ela, o corpo dorme, mas a alma não.Da oração vespertina
Uma oração matinal de entrega pode ser pronunciada com estas palavras: «Pai, este dia te pertence antes de me pertencer. Toma das minhas mãos aquilo que estou tentado a segurar, as pessoas que amo, o trabalho que me cabe, os desfechos que não posso controlar. Permita-me atravessar este dia como quem o recebeu, não como quem o construiu. Ajuda-me a estar presente onde estou, fiel naquilo que é meu, e em silêncio quanto àquilo que não é. Recebo este dia da tua mão. Devolvê-lo-ei a ti no final. Em Cristo, amém.»
Notemos a estrutura. A oração nomeia o dia como sendo de Deus primeiro. Identifica, por categoria, aquilo que a alma é tentada a retomar: pessoas, trabalho, desfechos. Pede uma postura, não um resultado, presença, fidelidade, silêncio. E encerra reenquadrando o dia como algo recebido, não como algo conquistado. Esse último reenquadre é o trabalho central da oração. Quase toda ansiedade que chegar durante o dia terá sua raiz no esquecimento desse reenquadre. Orada na manhã, a oração se torna o ponto de referência ao qual podemos voltar à tarde para ver o quanto nos desviamos e como retornar.
O segundo momento é o meio de uma luta. O dia começou e algo deu errado. O diagnóstico é mais duro do que o esperado. A conversa nos feriu. O trabalho não produziu o que esperávamos. A tentação nesse momento é tomar o assunto em nossas próprias mãos com renovada intensidade, pensar mais rápido, reagir antes, administrar mais estreitamente. Uma oração de entrega no meio de uma luta é a interrupção deliberada dessa intensificação.
No meio de uma luta, a entrega pode ser orada com estas palavras: «Pai, cheguei ao limite do que posso carregar, e ainda estou tentando carregá-lo. Eu o libero agora, não porque deixei de me importar, mas porque a ti importa mais, e tu o carregas melhor. Toma de mim aquilo que tenho segurado. Toma o medo daquilo que não posso controlar e o impulso de administrar aquilo que não é meu. Dá-me o próximo passo de obediência. Não preciso ver o caminho. Preciso ver o passo. Ajuda-me a ver o passo. Em Cristo, amém.»
Esta oração faz algo que a oração matinal não faz. Nomeia onde estamos. Não finge que a luta é menor do que é, nem finge que já nos entregamos. Nomeia o segurar com simplicidade, libera-o no momento, e reduz o pedido à sua forma mais simples: o próximo passo. No meio de uma luta, a alma não precisa de um mapa. O mapa é informação demais para uma alma já sobrecarregada. A alma precisa do próximo passo, e o próximo passo é quase sempre algo pequeno e concreto, uma ligação a fazer, uma frase a escrever, uma pessoa a perdoar, uma refeição a preparar, um corpo a descansar.
O terceiro momento é o limiar de uma decisão. Estamos prestes a agir, e a ação nos comprometerá. Casamento, vocação, geografia, a conversa difícil que vimos evitando, a decisão médica, a decisão financeira, a escolha de perdoar ou de reter o perdão. O limiar da decisão é o momento mais vulnerável a uma distorção particular: a alma confunde a ausência de certeza com a ausência de orientação. Uma oração de entrega no limiar da decisão é a prática que protege contra essa distorção.
Antes de uma decisão, a entrega pode ser orada com estas palavras: «Pai, esta decisão está diante de mim, e não a vejo inteira. Tu a vês inteira. Não posso esperar uma certeza que não me deste. Por isso te trago aquilo que tenho, meu melhor entendimento, meus desejos honestos, o conselho que recebi, a paz ou a inquietação que estou sentindo. Peço-te que dirijas esta decisão por meio daquilo que tenho. Onde eu escolheria contra a tua vontade, redireciona-me. Onde eu recuaria diante da tua vontade, fortalece-me. Comprometo-me com a decisão que estou prestes a tomar, e comprometo-me ainda mais firmemente contigo, de modo que, se a decisão precisar ser revista amanhã, eu ouça e obedeça. Em Cristo, amém.»
Esta oração aceita as condições da tomada de decisão nesta vida: informação limitada, entendimento imperfeito, consequências reais. Não pede que as condições sejam removidas. Pede que as condições sejam governadas. A cláusula final é a mais importante. A oração não amarra a alma à decisão de modo a cortar a correção. Amarra a alma a Deus de modo a permitir que a decisão seja revisada se ele mostrar que a revisão é necessária. Muitos equívocos espirituais não são cometidos no momento da decisão original; são cometidos depois, quando a alma deixa de escutar uma vez posta em movimento a decisão. A entrega no limiar da decisão mantém intacta a postura da escuta.
O quarto momento é o encerramento de um dia difícil. O dia está acabando, e o dia foi duro. O que esperávamos que acontecesse não aconteceu. O que temíamos que acontecesse aconteceu. A tentação nesse momento é revisitar o dia, repassar as conversas, auditar nossos fracassos, projetar as ansiedades de amanhã. Uma oração de entrega no encerramento de um dia difícil é a recusa deliberada de revisitar, e a colocação deliberada do dia, com todos os seus assuntos não concluídos, de volta nas mãos de Deus.
No encerramento de um dia difícil, a entrega pode ser orada com estas palavras: «Pai, este dia chegou ao fim, e não da maneira que eu queria. As conversas que esperava ter não aconteceram. A paz que esperava sentir não veio. O trabalho que esperava completar está inacabado. Trago-te o dia como ele realmente foi. Não preciso revisá-lo. Não preciso repassá-lo. Não preciso levá-lo para a noite. Toma de mim aquilo que não consegui fazer, aquilo que não acertei, e aquilo que eu não poderia ter mudado. Sustém as pessoas pelas quais me preocupo. Sustém os assuntos que não posso resolver enquanto durmo. Deito-me porque tu estás acordado. Em Cristo, amém.»
A linha «deito-me porque tu estás acordado» retoma a estrutura do Salmo 121. O sono da alma é permitido pela vigília de Deus. A entrega no encerramento de um dia difícil é a confissão encarnada de que o mundo não requer a nossa vigília para continuar, que as pessoas que amamos não são sustentadas pela nossa preocupação, e que os assuntos que não pudemos resolver hoje seguem sendo atendidos enquanto descansamos. Essa confissão é a precondição do sono real. Sem ela, o corpo dorme, mas a alma não.
Estas quatro orações, manhã, luta, decisão, tarde, não são as únicas orações de entrega. São um ritmo. Juntas formam uma estrutura que, praticada ao longo do tempo, produz uma alma que aprendeu onde a entrega é exigida e como dá-la. A estrutura pode ser expandida. Uma oração de entrega após uma perda. Uma oração de entrega após uma traição. Uma oração de entrega no começo de uma longa doença ou de uma longa obediência. A estrutura se adapta. O que não muda é o movimento subjacente: nomear onde estamos, liberar aquilo que estamos segurando, pedir aquilo que realmente precisamos, e confiar o restante Àquele que tem esperado, durante todo esse tempo, que pedíssemos.
Uma nota final sobre a prática. As orações de entrega são escritas e oradas na primeira pessoa por uma razão. O ato de dizer libero, trago, comprometo-me, deito-me ancora a entrega em quem fala. Impede que a oração se torne uma declaração abstrata sobre a entrega em geral. As Escrituras modelam isso de maneira consistente. Os Salmos estão quase inteiramente em primeira pessoa. A oração de Jesus no jardim está em primeira pessoa. As orações apostólicas estão em primeira pessoa. A entrega é uma transação entre uma alma específica e um Deus específico. As orações acima são modelos. A voz em primeira pessoa é a porta pela qual elas se tornam suas.