Soltar e deixar a Deus é uma das frases mais repetidas do vocabulário espiritual contemporâneo, e tornou-se tão familiar que seu peso se desgastou. Dizemo-la a um amigo em dificuldade. Afixamo-la a uma parede. Respiramo-la antes de dormir quando a mente não se aquieta. E, no entanto, a frase, usada como atalho inspiracional, foi silenciosamente esvaziada justamente daquilo que lhe dá força espiritual. Soltar e deixar a Deus não é um sentimento. É uma disciplina. É o efeito acumulado de decisões tomadas, repetidas vezes, para liberar aquilo que a vontade humana jamais foi feita para sustentar e entregar essas coisas Àquele que as carrega sem esforço.
As Escrituras que fundamentam essa prática são diretas. «Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apoie no seu próprio entendimento. Reconheça o Senhor em todos os seus caminhos, e ele endireitará as suas veredas.» A instrução é estrutural. Não pede que a administração dos próprios assuntos seja aprimorada. Pede que a administração dos próprios assuntos seja entregue, não ao caos, mas ao cuidado ativo de Deus. A frase «soltar e deixar a Deus» é, em sua raiz, a tradução prática deste Provérbio para o ritmo de um dia comum.
A entrega não desativa a vontade. Ela a esclarece. Retira da vontade o peso de desfechos que ela nunca foi autorizada a determinar e a devolve ao seu âmbito próprio: presença, fidelidade e o próximo passo de obediência.Do artigo
Há um equívoco que tem acompanhado a frase desde sua entrada no uso popular, e convém nomeá-lo com clareza. Soltar não é desistir. Não é abandonar a responsabilidade, desengajar-se da própria vida, nem substituir pela oração o trabalho que a oração devia dirigir. O padrão bíblico é consistente nesse ponto. Aqueles que se entregaram mais plenamente, Abraão, Moisés, Maria, Paulo, foram também os que agiram com maior decisão quando chegou o momento de agir. A entrega não desativa a vontade. Ela a esclarece. Retira da vontade o peso de desfechos que ela nunca foi autorizada a determinar e a devolve ao seu âmbito próprio: presença, fidelidade e o próximo passo de obediência.
Há três coisas distintas que se pede à alma liberar quando aprende a soltar e deixar a Deus. A maior parte da luta nessa prática vem de colapsar as três em uma só, tentando entregar tudo de uma vez, e descobrindo que a vontade resiste com uma força que nos surpreende. As três são: o controle, o resultado e a identidade. Cada uma deve ser liberada em seu tempo. Cada uma exige seu próprio confronto com aquilo que passamos a acreditar nosso.
A primeira é o controle. A vontade chega à maturidade convicta de que pode produzir, com esforço suficiente, as condições que deseja. A maior parte da vida adulta se organiza em torno dessa convicção. Quando a convicção se sustenta, sentimo-nos competentes, seguros e em repouso. Quando a convicção se quebra, por doença, perda, traição ou qualquer uma das decepções estruturais que chegam a toda vida, descobrimos quanto da nossa paz repousava sobre a ilusão de estarmos no comando. Soltar o controle não é fingir não ter nenhum. É reconhecer o alcance preciso do controle que de fato possuímos, que é a nossa fidelidade no momento presente, e entregar o restante. O restante pertence a Deus. Sempre pertenceu.
A segunda é o resultado. Mesmo quando soltamos o controle do processo, a vontade tende a se apegar ao desfecho. Oramos para que o casamento se cure, para que o diagnóstico se reverta, para que a porta se abra, e amarramos nossa disposição de entregar à concessão do pedido. Isso não é entrega. É negociação. Soltar o resultado é orar como Jesus orou no jardim: «Não seja feita a minha vontade, mas a tua.» Essa cláusula, essas seis palavras, é o que distingue a maturidade espiritual da barganha espiritual. O desfecho que queríamos pode vir. Pode não vir. O que permanece constante, quando o desfecho é entregue, é a bondade d'Aquele que o sustenta.
A terceira é a identidade. É a mais profunda das três entregas, e é aquela que a maioria nunca alcança. Construímos um eu ao longo de uma vida inteira, um eu moldado por papéis, conquistas, vínculos, as aprovações que coletamos e as feridas que absorvemos. Quando dizemos «soltar e deixar a Deus», em geral queremos dizer que estamos dispostos a liberar uma circunstância. Raramente estamos preparados para liberar o eu que se formou em resposta a essa circunstância. E, no entanto, é exatamente isso que as passagens mais profundas da vida espiritual exigem. Aquele que está em Cristo, escreve Paulo, é uma nova criação. O velho passou. Eis que o novo chegou. Soltar plenamente é consentir à morte do eu construído para que o eu que Deus tem formado em segredo possa vir à luz.
Consideremos agora a segunda metade da frase, geralmente negligenciada por completo. Soltar é apenas o primeiro movimento. Deixar a Deus é a resposta que Deus dá ao espaço que abrimos. Deixar a Deus é aceitar, no mesmo instante em que liberamos, que não estamos caindo no nada. Estamos caindo nas mãos d'Aquele cujo amor precede a nossa consciência dele, cuja competência para governar o que não podemos governar não está em questão, e cuja presença não depende da nossa capacidade de senti-la. Deixar a Deus é a crença ativa de que o espaço que criamos ao soltar será preenchido por ele, no seu tempo, à sua maneira e em direção a um fim que é melhor do que aquele que estávamos tentando organizar.
A prática diária é mais simples do que a explicação. É composta de três ritmos. O primeiro é a oferta matinal: antes que o dia comece, nomeamos os assuntos que estamos tentados a carregar e os colocamos, por um ato da vontade, nas mãos de Deus. O segundo é o instante do resgate: quando, durante o dia, percebemos que retomamos alguma coisa, soltamos novamente. O resgate pode acontecer dez vezes em uma hora. Isso não é fracasso. Isso é a prática. O terceiro é o exame vespertino: ao fechar do dia, examinamos onde sustentamos e onde liberamos, e pedimos a graça de soltar com mais liberdade amanhã. Anos dessa prática produzem uma alma que já não experimenta a entrega como um acontecimento espiritual especial. A alma a experimenta como a textura de um dia comum.
Haverá estações em que soltar parecerá impossível. O luto está fresco demais. A injustiça é cortante demais. O futuro é incerto demais. Nessas estações, a prática não muda, mas seu ritmo desacelera. Não nos é pedido sentir a liberação. É-nos pedido fazê-la, na menor unidade disponível, uma única frase, um único respiro, uma única decisão de não cair na espiral. O sentimento virá depois, às vezes horas mais tarde, às vezes semanas. A liberação é real mesmo quando o sentimento ainda não está presente, porque a entrega é um ato da vontade, não um estado das emoções. Esta é uma das frases mais importantes da vida espiritual, e deve ser dita com cuidado: a vontade conduz, as emoções seguem.
Com o tempo, a prática de soltar e deixar a Deus produz algo que não pode ser produzido de nenhuma outra maneira. Produz uma alma que não se apega a nada com demasiada força porque aprendeu, por demonstração repetida, que aquilo que lhe é destinado não pode ser perdido e aquilo que não lhe é destinado não pode ser retido. A paz que se segue não é a paz do arranjo. É a paz do consentimento. E a liberdade que se segue não é a liberdade de ter obtido o que queríamos. É a liberdade de não sermos mais governados pelo querer.
A frase, finalmente, retorna a nós cheia. Soltar e deixar a Deus é a obra de uma vida inteira, empreendida um respiro de cada vez, em toda situação que pede à vontade entregar o que ela nunca foi feita para sustentar. Não nos isenta do luto, do esforço, nem das responsabilidades de uma vida comum. Devolve cada uma dessas coisas à sua justa medida e ao seu justo Autor. Atravessamos o dia, atendemos àquilo que nos cabe atender, e deixamos o restante onde sempre pertenceu.